Dom José Francisco fala sobre a Campanha da Fraternidade

No artigo publicado pelos jornais O Fluminense e A Tribuna, o Arcebispo de Niterói escreveu sobre a Campanha da Fraternidade. Abaixo a íntegra deste artigo:

SOMOS TODOS IRMÃOS

Na Campanha da Fraternidade – que hoje se abre – a Igreja no Brasil propõe temas que tangenciam os caminhos humanos. O tema desse ano é a superação da violência. Ouviremos muito nesta Quaresma que VÓS SOIS TODOS IRMÃOS (de Mateus 23,8).

Motivos não faltam!

Nossas residências estão trancadas, nós estamos isolados, o medo nos afasta, a violência nos intimida. Como num filme de terror, o Brasil responde por 13% dos assassinatos do planeta, um percentual que contradiz a imagem de povo pacato. Onde mais as pessoas podem pagar por segurança, é onde mais se pode contar com o aparato de segurança estatal. Nas periferias, os moradores estão entregues a grupos armados. A segurança é privilégio de poucos; a violência, realidade de muitos.

Numa cultura da violência, geralmente, a culpa é atribuída à vítima. A mulher violentada é vista como quem não se deu ao respeito; o adolescente drogado, como quem merece represálias. A cultura da violência é também discriminatória.

E quem são as maiores vítimas?

O mapa da violência de 2016 mostra que mais jovens negros padecem violência do que brancos, e mais mulheres do que homens. Numa lista de 83 países, o Brasil ocupa a quinta posição entre as nações que mais assassinam mulheres, e grande parte dentro de casa. No que diz respeito à criança, o quesito violência é assustador!

O trânsito é outra arena de gladiadores. Muitas mortes poderiam ser evitadas, apenas obedecendo a regras básicas de respeito e civilidade. E há também a violência religiosa promovida pelo fanatismo e a intolerância, sobretudo, contra as religiões de matiz africano.

Quanto sangue, quanta dor! Às vezes fica a impressão de que o país precisa ser redescoberto.

Todos precisamos ser redescobertos!

Desde o rompimento da relação do homem com Deus, nas origens, nada mais se pode esperar a não ser a violência. O assassinato de Abel foi só o início de uma triste carreira homicida. Seremos redescobertos quando nos descobrirmos responsáveis uns pelos outros, responsáveis pela reconstrução de um projeto que foi postergado.

A hora chegou: o futuro é hoje.

“Ouvistes o que foi dito: olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não se vinguem de quem vos fez mal. Pelo contrário, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda” (Mt 5,38).

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Não à maneira do mundo, eu a dou” (Jo 14,27).

Todos nós desejamos a paz; muitas pessoas a constroem todos os dias com pequenos gestos; muitos sofrem e suportam pacientemente a dificuldade de tantas tentativas para construí-la” (Papa Francisco, no Dia mundial da paz de 2017).

Em 2007, foi beatificado, como mártir, o austríaco Franz Jagerstatter, casado e pai de família. Ele rejeitou colaborar com o regime nazista, foi condenado à morte e decapitado em 1943. É preciso resistir a toda forma de violência e consagrar os esforços na causa da paz.

Afinal, não somos todos irmãos?

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