Padre Douglas: “A Fuga para o Egito e a Quarentena”

Há mais ou menos dois ou três anos, a imagem da fuga da Sagrada Família para o Egito tem me chamado a atenção. O “levanta-te”, dirigido pelo anjo a S. José (Mt 2,13), tem sido um contínuo convite para que eu me levante das minhas passividades e siga o caminho. Além disso, nas diversas imagens que contemplamos, alguns detalhes me questionam: o olhar sofrido e, ao mesmo tempo, esperançoso de S. José; a serenidade da Virgem Maria; um olhar Josefino, voltado para o céu; a discrição da mão de José, que repousa sobre o animal que carrega a Virgem e o Menino, como sinal da providência, do seu cuidado.

Há uma semana, parece que todos nós fomos surpreendidos e despertamos de um sono, com uma palavra: “quarentena”. Todos nós nos sentimos como José! Era hora ou é a hora de despertar e fazermos algo. Escutamos uma palavra que nos desestabilizou, nos lançou para fora de nós mesmos e nos chamou a seguir um caminho que jamais pensamos que viveríamos. Contudo, o que ela, a quarentena, e ele, S. José, nos ensinam?

Primeiramente, nos ensinam a parar! Já tínhamos nos esquecido de parar e ficar com o essencial e no essencial, fazer o essencial. Parar para escutarmos a nós mesmos, os outros e o próprio Deus! Parar para cuidar das nossas casas, de nós mesmos e dos outros! É a oportunidade de parar para descansar, ler, estudar, rezar e fazer tantas coisas importantes e úteis.

Além disso, eles nos ensinam a mudar ritmos, costumes, estilos de vida, cuidados consigo e com os outros! Para tudo isso, se faz necessário uma disciplina básica, que nos ajude e nos guarde de tantas tentações. Não é o tempo para falarmos demais, nos enchermos de mais informações, nos policiarmos no uso das redes sociais, cuidarmos da nossa alimentação. Quantos livros poderemos ler nesse tempo?! A quantos filmes podemos assistir?! O quanto podemos crescer em nossa vida de fé, rezando e estudando?!

Depois, nos ensinam que é preciso criatividade, para viver um novo momento, que surpreendeu a todos. É a oportunidade para aprofundarmos nossa fé, intensificarmos nossa comunhão com Deus, através de tantas maneiras. É o tempo de tomarmos as Sagradas Escrituras em nossas mãos, para aprofundarmos nossa fé! É a oportunidade de alimentarmos nossa fé com a leitura do Catecismo da Igreja Católica! É a ocasião para santificarmos o nosso tempo, rezando a Liturgia das Horas! Estamos diante da oportunidade de estar com as nossas famílias e rezarmos com elas, celebrarmos e partilharmos a Palavra de Deus.

Como pano de fundo da experiência da Sagrada Família, parece que vemos as palavras proféticas de Jesus à Samaritana: “‘…Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito, e os seus adoradores devem adorá-lo em espírito e verdade’.” (Jo 4, 23s) Como a Sagrada Família, somos convidados a adorar o Pai em espírito e verdade, onde quer que estejamos!

Parece que S. José, ao mesmo tempo em que antecipa a palavra de S. Paulo aos Romanos, nos faz lembrar daquilo em que cremos e somos convidados a viver, no hoje da nossa vida: “todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus…Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada?… Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores, pela virtude daquele que nos amou.” (Rm 8, 28. 35. 37)

No final das contas, temos duas opções: ou fazemos como o povo de cabeça dura que se perguntava “O Senhor está ou não no meio de nós?” (Ex 17,7) ou vivemos como um povo peregrino, que professa sua fé a cada celebração eucarística, dizendo: “Ele está no meio de nós!”

Enfim, é o momento de proclamarmos com a voz e a vida as palavras do salmista: “o nosso auxílio está no nome do Senhor, que fez o céu e a terra.” (Sl 124,8)

Padre Douglas

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